domingo, 26 de setembro de 2010

O amor e a rosa

Como abelha, que transforma em doce mel a pétala suave
Como ave noturna, que arrepia com seu pio, seu agouro
Como ouro, que reluz na pepita, tão bonita, tão cheia de brilho
Como filho, que se apega ao seio e suga o leite, a vida daquela que o conduz.

Como lua, que enche, se renova, cresce e quase morre à míngua
Como língua que, afiada, corta qualquer palavra, qualquer segredo
Como medo, que tira o sossego e inunda a alma de escuro
Como muro, que cerca a gente, prende, esconde a face da realidade.

Como vício, que começa e não acaba, enraíza, se agarra em nossa mente
Como gente, que sucumbe a qualquer dor, até a que causou com a própria mão
Como pão, que sacia, mata a fome, se multiplica no milagre do trigo
Como amigo, que nos dá o braço, o ombro, e enxuga a lágrima que rola.

Como tudo o que existe, e que há de mais perfeito no universo
O meu amor também se pronuncia, em verso e prosa
Como uma rosa, que floresce e desabrocha no jardim que é bem cuidado
O meu amor, se bem amado, permanece inalterado dentro de mim.

domingo, 19 de setembro de 2010

Desejos

Queria poder, um dia, ver refletida a minha imagem
No fundo do seu olhar, na água rasa e limpa dos seus olhos
Ter como casa a sua íris cristalina, me espelhando em um pedaço do seu mundo.

Queria preencher, um dia, o espaço desse seu coração tão leve e solto!
E, mesmo que por um breve instante, mergulhar em sua batida
Ouvindo a vida que ecoa, no correr do sangue, em sua veia.

Queria me prender, um dia, na teia de suas ideias mais secretas
Tendo acesso aos sonhos que povoam sua mente, fervilhantes
Para entender o seu antes, o seu agora, o seu futuro.

Queria quebrar, um dia, o muro que separa duas almas
Deixando que elas corressem, calmas, livres, lado a lado
E revivessem o passado, recompondo um quadro antigo.

Queria ser, um dia, o peito amigo e o largo sorriso que eu vejo
Quem sabe, assim, você compreendesse o meu desejo evidente
De que estivesse a toda hora aqui, presente, nunca longe, sempre perto, nunca ausente...

domingo, 12 de setembro de 2010

Pra falar de você

Pra falar de você, eu falo de mim mesma...
Falo dos lados da moeda, do negativo do retrato
Falo do fato de beijar a sua boca e ser sua irmã
Falo de acordar pela manhã com seu sorriso em minha noite
Falo de riso e de água que escorre pelo rosto, vinda do olhar...
Pra falar de você, eu falo do que existe...
Falo da fruta bem madura, que eu retiro e devoro com vontade
Falo do ar que eu respiro, e tantas vezes ignoro
Falo da saudade, que deixa escura a minha alma
Falo da palma da mão, que sua, caleja e luta...
Pra falar de você, eu falo do que amo...
Falo das palavras que eu rimo, com carinho de criança esperta
Falo da alegria aberta, que eu levo como um mimo, pra quem possa querer
Falo da lembrança do meu eu no seu caminho, atravessando a sua luz
Falo de você, que me conduz sem o menor temor
Que me seduz com todo o seu calor
E que faz juz a tão sincero amor...

terça-feira, 7 de setembro de 2010

A vida pede passagem

E a vida passa...
Tal e qual passageira de primeira (e talvez de última) viagem
Como um bloco, uma escola de samba, ela pede passagem
Pode ser um bilhete de trem, um cartão de metrô,
Ou dinheiro amassado, suado, na mão do trocador
E a vida vai...
Ela vai e navega, se entrega
Tal e qual a mulher que se pinta, se borda, se arruma, se decota
À espera daquele qualquer que, por horas de mero capricho,
Lhe joga, à saída, uma nota
E a vida termina...
E ensina que tudo se foi, já passou, acabou, se apagou
Como vela de uma semana, que no quinto dia já não tem mais luz
Como amor, que não chega na hora marcada e pro sofrimento a gente conduz
Como tudo, que agora é nada
Como dor, que agora é prazer
Como é a certeza que sobra da vida: ela passa, se vai e termina
Depois de brilhar nos olhos de uma menina
Depois de sumir na curva de uma estrada
Depois de voar nas asas do sonho que foi embora
Deixando a saudade calada...