sábado, 9 de junho de 2012

Etapas do Amor

O começo do Amor
Só consiste em olhar e gostar, pagar à primeira vista o preço da ilusão que já existe...
Nessa hora, nada mais importa!  Basta abrir a porta e deixar que a alegria entre, iluminada!

O meio do Amor
Arde na pele e revela os segredos, os medos, os dois lados diferentes, os bocados de sonho, a coragem, o covarde...
Nessa hora, a verdade aparece.  O que é sincero, cresce.  O que é falsidade, fenece, porque o coração rejeita a máscara, e joga a mentira pro lado de fora.

O final do Amor
É o início da amargura, daquela dor que, de tão doce, vira vício...
Nessa hora, é como ducha pura de água fria, que nos enche de mágoa e de tristeza.
É a correnteza que nos leva de volta para o mundo; é, mais uma vez, guardar no fundo do peito a revolta e a saudade.
É o brilho da estrela que não se cansa de ser guia, como o Amor, que não desiste da Esperança!

Desculpas

Desculpe...
Se eu nego, reprimo, castro a ânsia do meu corpo
Se eu me assusto, tremo, corro de você e de mim mesma
Se eu me afasto, desfaço o clima, corto o abraço.

Eu tenho medo...
Medo de você, que me enfeitiça, me provoca, me atiça
Medo de mim, que me entrego e, num desejo cego, sigo sua pista
Medo de nós, que nos queremos, nos envolvemos, pele com pele, numa cor mista...

Fique comigo
E deixe que eu me sinta segura nas suas palavras
E deixe que eu me sinta quente no seu colo
E deixe que eu me sinta gente importante na sua vida!

Porque você
É ninho gostoso pra depois de um voo cansado
É cama aconchegante pra depois de um amor ruidoso
É abraço bem suado pra depois de um beijo ofegante
É, num instante prazeroso,
Meu amigo
Meu amante
Meu namorado...

Visão

Qual lago sereno, sem ondas, sem vento
Plácida, a ver estrelas ao relento...
Canta o trovão, a sua imagem resplandece
Tremulo em ondas, e minha paz desaparece!

Por que você, justo neste instante?
Que outra armadilha me prepara o seu semblante?
Não quero vê-lo, mas preciso.  Me dói tal consciência
E busco, em vão, apagar de mim a sua essência...

Fugir sei que não há de ser o meu destino
Mas imputar-me a pena eterna do desejo
Será o melhor meio de conter meu desatino?

Só sei que, se me molhasse com seu beijo
E se entregasse a mim (Enfim!), feito um menino
Eu amaria, talvez pra sempre, a tez que vejo...

Tarde demais


Dos beijos, justo o que eu não dei é o mais doce.
Da pele, a tua, que é mais bela, eu não toquei.
Tantas mãos já enlacei!  Quem dera assim fosse
Feliz...  Mas meu olhar com o teu eu não cruzei.

Calei meus sonhos.  Impossível teu abraço
E teus afagos não acalentarão minh'alma...
Sei que para mais distante vais, a cada passo
E o não te ver me adormece e me acalma.

Mas uma parte de mim, ínfima e cruel,
Escarnece da minha dor, zomba e diz: "Covarde!
Como podes deixar um tal amor ao léu?"

Então a velha chama, que dormia, arde
E ouço a minha voz bradar até o céu:
"Por que eu não lutei, Senhor?!"  Agora é tarde.

 

Quando a gente gosta...

Cuide do meu coração...
Entenda que a batida forte do meu peito
É sinal de que a paixão não tem mais jeito...
Cuide do meu coração...
Entenda que o abraço longo e apertado
É sinal de que o desejo o tempo todo ao meu lado...
Cuide do meu coração...
Entenda que o beijo demorado e quente
É sinal de que já transborda o que se sente...
Cuide do meu coração...
Entenda que o ombro acolhedor e amigo
É sinal de que pode contar sempre comigo...
Cuide do meu coração...
Entenda que a mão firme e estendida
É sinal da sua importância em minha vida...
Cuide do meu coração...
Entenda que este sentimento terno e sincero
É sinal do quanto eu gosto, de quanto o quero...

Pátria Amada

Canta de novo a minha música, amor...
Leva a minha dor pra longe.  Me encanta
Com essa sua cor!  Espanta a treva
E enche de luz minh'alma.  Eu tenho pressa
De viver feliz, e faço jus a tudo
Que eu desejo.  Se o meu coração quis,
O meu país é o seu corpo, e a minha pátria, o seu beijo...

Paixão

Estou confusa...
Confusa por me sentir a invadida e a intrusa
Confusa por não saber se você me quer ou se me usa
Confusa por não disfarçar o coração, que explode sob a blusa
Confusa por me deixar levar pelo mesmo sentimento que me acusa!

Estou perdida...
Perdida por sonhar acordada e querer você até adormecida
Perdida por tentar, em vão, esquecer sua risada divertida
Perdida por olhar a sua cor e me ver, nela, refletida
Perdida por permitir que você entre, assim, na minha vida!

Estou apaixonada...
Apaixonada por um cheiro de pele, que me deixa atordoada
Apaixonada por um cabelo tão macio, que me deixa alucinada
Apaixonada por um corpo forte e doce, que me deixa enciumada
Apaixonada por um homem diferente, que eu não vou deixar por nada!

Oração ao Infinito

Obrigada, Senhor, por este céu cheio de estrelas...
Por tudo o que existe em cada uma delas,
Por sua luz que nos conduz, como pingos de velas em um quarto escuro,
Iluminando o breu triste.
Obrigada, Senhor, por encher meus olhos de estrelas...
Por permitir que o Universo invada o meu pranto,
Por este encanto que se descortina ao véu do meu olhar,
E que me leva a passear por essa trilha prateada.
Obrigada, Senhor, por ter criado as estrelas...
Por pontilhar de brilho a noite dos aflitos,
Por ouvir seus gritos, abafados dentro dos corações que choram,
Como mãe longe do filho.
Obrigada, Senhor, por nos dar de presente as estrelas...
Por fazer com que elas nos guiem vida afora,
Por nos abençoar com a dádiva de, em tardia hora da noite,
Poder vê-las...

Renascer

Findou-se um ciclo...  E brilha nova aurora
Que traz em si candura de criança.
Pura harmonia, luz de esperança
Brotam, em paz, neste meu peito, agora...

Ficam-se os erros para trás...  Passados
São os atalhos turvos do caminho.
As cicatrizes, marcas vis do espinho,
Lembram tormentos, hoje superados...

Sigo adiante.  Minha fronte altiva
Embora mostre, ainda, alguma dor
Já não é mais, da mágoa, alma cativa...

Voo outra vez...  E, livre do rancor,
Sinto pulsar a magia de estar viva
E deixo entrar, sem medo, um novo amor...

Desejos para 12 de junho


Desejo pra você o canto doce da cigarra,
A farra e a alegria de um louco romance,
O pouco, que é muito, de viver num dia
Um sonho.  E que nele você dance!

Desejo pra você um temporal de flores
Sem dores, sem lamento, sem sofrimento ou pranto.
Que lhe caia sobre os ombros o manto da esperança
E uma mansa ilusão lhe afague em tal momento!

Desejo pra você um amor terno e profundo
Que lhe dê o valor tão merecido
E voe, com você, por todo o mundo...

Desejo pra você a flecha do Cupido
Para que atinja alguém especial e, num segundo,
Forme, com minha bênção, mais um casal querido!...

Destino

Gira a roda da fortuna, e a minha sorte
Faz do forte, um fraco; da vida, a morte.
Traz o norte para o sul, e o azul do céu
Perde o seu véu, e vira medo, noite escura...
Só eu sou o brilho, só eu o sol, o filho da luz clara;
Sou joia rara, ofusco o perdedor, mostro a todos sua falha.
Em minha fina malha, separo o campeão do seu azar
E permito sua ascensão ao patamar mais alto...
Meu nome é Destino, sou o senhor do que virá!
Sei do menino e do homem, do prazer e até da dor...
Fazer de cada um o que bem me aprouver é minha sina,
Sou aquele que ilumina teu caminho - se eu quiser...
De mim depende o futuro, e ele é incerto,
Já que posso estar perto da felicidade ou da tristeza.
Se és alma pura, não te deixes levar pela beleza do momento,
Pois meu instrumento preferido de tortura é a saudade...

Canção da Colheita

Criança é semente, é grão de gente
Que passa pela nossa mão.  Ela a espalha
Pela terra, seca ou fértil.  Esta planta
Vai crescendo, e nela se encerra a esperança
De mudança deste mundo pra melhor.
Nós semeamos, plantamos, chovemos sobre ela
O saber, a experiência, a vida e a arte.
À vezes, sem querer, abafamos sua essência
E parte do que ela é deixamos de lado, esquecida.
Mas a missão do semeador é secular e sagrada
Pois ela carrega o futuro, o amanhã, o novo dia!
Se alguma flor não desabrocha, lamenta-se a perda
Mas não desistimos da labuta, seguimos em frente
Mesmo lidando com o sol, o granizo, o espinho e a rocha.
Aguardamos a hora tão esperada da colheita
Observando, com ternura, a mágica das folhas se abrindo...
A pura satisfação de ver a criança que se foi
Trazendo até nós o adulto que hoje é
Nos dá a fé para semear de novo, e colher o povo
Em comunhão com a escola, terra de todos:
Da semente-criança ao mestre-agricultor...

Caixinha de música (a 1ª poesia)

Olha...
Repara bem nesta bailarina
Que dança, impassível,
Diante dos teus olhos.
Baila e enfeitiça.

Olha...
Repara bem neste coração
Que, de tanto admirar a bailarina,
Resolveu admitir que também dança
Quando te vê
E, impassível diante dos teus olhos,
Num louco frenesi
Baila, desesperado, assim
Enfeitiçado por ti!

Aconchego

Você chega
E bagunça o meu coreto, sacode a minha poeira
Balança a minha cabeça, invade o meu espaço
Ocupa seu lugar na minha vida, na minha vista
Me perturba com esse jeito que é só seu
Com esse seu sorriso (Quem dera fosse meu!)
Com esse seu olhar (Decifra quem sou eu...)
E eu aqui
Querendo olhar você e devorar o que eu vejo
Sem controlar o meu desejo, a minha fome
De ouvir sua voz falar meu nome, no meu ouvido
De ver esquecido o tempo, do seu lado
Sentir seu peito quente, largo.  No aconchego
Dos seus braços me esconder, fugir do mundo
E, num segundo, mergulhar no mais profundo que há em mim
Trazendo assim, do coração, uma vontade louca de viver
Colada, atada, bem amarrada no seu tudo, no seu todo
No seu nada, em você...

A voz do povo

Ouço a voz do povo, sábio enquanto pobre,
Roto enquanto nobre, conservador e novo...
Fala dos seus mitos, dos seus dolorosos gritos
E, enquanto desfila a imagem dos combates ardorosos,
Vejo nascer, nas figuras famosas, nossas lendas...
Fala das vendas, das fazendas, da trincheira,
Do negro, escravo, africano, que jogava capoeira,
Do português tão branco, tão bravo, tão desumano,
Do amarelo, o índio, ontem dono, hoje não tem voz nem vez...
Fala das guerras, das terras selvagens, de sertão,
E, ao mesmo tempo, grita a arte, a canção e a poesia
Pois esse povo faz e fez da alegria e da tristeza
Motivo de decoração, de verso, de estrofe e melodia...
Fala da natureza, dos animais às flores,
De tantas cores que pintam nosso chão e nosso céu,
Do mel  que adoça a boca cheia da mulata,
Do ouro e da prata que enfeitam o corpo da brasileira...
Fala da bandeira, do amor que ela representa,
Desta nação tão dependente e, ao mesmo tempo, soberana,
Da cana, do café, do cacau e da madeira,
Do pau-brasil que deu nome ao que o país hoje é...
Fala do faminto, do ricaço, do patrão e do empregado,
Da desigualdade que separa as gentes, que desata o laço,
Do preconceito grande de cor, de amor, de idade, credo ou raça,
Da cidadania perdida, da sonolência da massa...
Da violência, da fome e de tudo o mais
Fala a voz do povo.  E o povo...  O que faz?

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Viajar é preciso (9º lugar - Folha Dirigida/ABL - 1997)

   Cada livro é uma viagem...  E nós, os viajantes sem rumo neste mundo de palavras, entregues à sorte e às ideias dos autores, esses artistas, que nos ofertam riso e dor, luxo e miséria, amor e ódio, num país sem fronteiras...  O livro está para a cultura como o barco para o mar: deixa em cada porto um pedaço brasileiro, um tesouro que irá enriquecer o pescador...
   Viajar é um desafio!  É encontrar-se na Bahia, ser um capitão de areia e jogar capoeira no cais, ou ainda Gabriela, vistosa morena sob o olhar atento de Jorge, tão Amado!  É perder-se nos pampas, imaginar-se um certo gaúcho Rodrigo, uma Ana - casta como a Terra - na mais perfeita tradução do Sul de Veríssimo.  É embrenhar-se nas praias e matas, ainda virgens, do Brasil, vivendo as aventuras e desventuras de Peri e Iracema...  Que Tupã o abençoe, grande pajé Alencar!  É ficar de ressaca ao ver os olhos de Capitu, ser casmurro como Dom Machado de Assis...  É velar Severino e tantos outros, pranteando com Melo Neto a morte e a vida no Nordeste...
   Viajar é doce, é pura poesia...  É deixar-se levar pelos sonetos de Vinícius, jurando-lhe fidelidade e amor total antes da separação...  É banhar-se nas Espumas Flutuantes do rio Castro Alves, e comover-se, e indignar-se, e envergonhar-se do nosso passado (?) preconceituoso e intolerante.  É desvendar a tragédia humana em versos biologicamente corretos, no linguajar inconfundível de Augusto dos Anjos.
   Cada livro é uma viagem...  Quem dera conhecer a Arcádia mineira, e amar o amor simples de Dirceu!  Quem dera voltar a Itabira, e retirar a pedra do caminho de Drummond!  Quem dera passear por Passárgada, ser amigo do rei e porta-voz de Bandeira!  Quem dera adentrar o sertão e lutar ao lado do bem, nas grandes veredas de Guimarães Rosa!
   Viajar é preciso!  É preciso ler para desbravar este nosso chão, é preciso o livro para que cada irmão se reconheça no outro, em espelhos que se estendem do Oiapoque ao Chuí, página à página, palavra por palavra...  É preciso ser um turista dos livros, contemplar a diversidade, explorar as doferenças e redescobrir o Brasil!  Viajar nos livros é reconstruir a nossa própria história...

Você tem fome de quê?

   A quem dá de comer a poesia?  Quem pleiteia por palavras em meio à mendicância que impera?  Diante dos miseráveis, o que gera um verso tem importância?  Qual é o papel de uma rima, sendo pobre ou rica, se há gente que a vê e não a lê?
   Tantas fomes diferentes, tantos os que pedem...  Pão, trabalho, amor, teto, agasalho.  E a poesia, a quem sacia?  Apenas àquele cujas letras codifica, numa educação formal?  Ou, na "escola da vida", a real poesia pode ser sentida?
   Disse Ferreira, com propriedade, que o poema "não fede, nem cheira"...  É verdade.  "Não há vagas" para estrofes ou quadrinhas.  Linhas se perdem nas sarjetas, viram lixo; de gorjetas é que vive "O bicho", não de letras...
   A "Poética" brasileira está farta!  Lirismo, só o que é Bandeira de libertação!  "O operário em construção", sofrido, deve ser ouvido...  Seus pesares, seus ais...  E Moraes o reconhece: "casa, cidade, nação", erguidas poe este cidadão...  Que nada tem, e tudo merece!
   É preciso repartir melhor não só o pão nosso de cada dia, mas também a poesia!  Dividir com o menos favorecido um poema lido, onde ele se veja refletido!  Oferecer um pouco mais que comida pode mudar os rumos de uma vida, e da história!
   Glória seria transformar o pedinte em ouvinte de Drummond, o necessitado em fã de Machado de Assis...  Em todas as ruas do país, Quintana para meninos e meninas!  Banhos de "Espumas Flutuantes" em cada chafariz!
   Escrever-se-á, assim, um capítulo novo da "História Pátria"; aquele que está por vir, além destes tempos de indigência, onde "Mãos dadas" compartilham mais que a realidade dura; onde a literatura, com seus versos pueris, combate a fonte mais pura do mal que assola nossos irmãos, hoje servis: a negligência!

Silêncio...

Ah, telefone...  Por que cala?
Por que não fala mais do meu amor, emoção tão poderosa?
Por que me impõe essa dor silenciosa, que me agita?
Por que não grita?  Criado-mudo, sem valor...

Ah, telefone...  Por que adormece?
Por que não reconhece a voz dele, que me acalma?
Por que permite que minh'alma esteja cheia de incerteza?
Por que não soa?  Tortura chinesa, sem limite...

Ah, telefone...  Por que não toca mais?
Por que não me traz paz, e a boa nova pela qual anseio?
Por que não prova, sem demora, que o receio está a enganar-me?
Por que não chama, agora?!  Já que seu som é deveras precioso
Pois, com ele, vem o delicioso ato de entregar-me a quem me ama...

Réquiem de 12 de junho

O dia seria nosso, em outra circunstância...
Teu sorriso viria até mim, bem devagar,
Meu coração sairia do compasso, por te amar,
E nada mais teria a mínima importância!

Teu beijo quente me levaria além do mundo
E contigo eu estaria, por toda a eternidade...
Como num sonho, desfrutaria tal felicidade
Que poderia até voar, por um segundo!

Mas o dia é para outrem, e eu me afogo
Num mar de dor, tão infinita quanto doce,
E só sei pedir que a Morte chegue logo!

Vejo, por fim, aonde o Amor me trouxe,
E a Deus, ó Pai onipotente, eu rogo
Um olhar teu, ínfimo que fosse...

Prazeres

É o mesmo fogo que me consome, mais uma vez
É a mesma fome, a mesma tez, o mesmo jogo...
É você de volta pro meu abraço, pro meu mundo
É o desejo mais profundo...  E aí eu já não sei mais o que faço...

Como negar o meu semblante tão risonho
Se parece um sonho ter você de novo nesse instante?
Como fugir do fato de que preciso urgentemente dessa boca
Se fico louca de prazer num arrepio imediato?

Certeza, só uma: o seu beijo ainda me aquece
E minha mente não se esquece desse corpo, que eu vejo
Junto ao meu, compartilhando comigo o seu calor,
Me embriagando de amor, me protegendo em seu abrigo...

Partida (1º lugar - FERP/VR - 1996)

Meu ex-passo,
Meu pré-fácil,
Meu ante-abraço,
Meu pós-parto...
E parti, deixando uma carta de herança,
            deixando a mesa farta de esperança,
            deixando a voz do "Parta!" de lembrança...
Parti partida, e minhas pares sei que não mais vão se juntar,
Porque ficou minha metade, naquela sala,
Porque ficou minha saudade, que me cal,
Porque ficou minha felicidade, que hoje nem me fala...
Se parti na hora certa, não tenho certeza.
Mas resolvi o meu problema, de acordo com as leis,
       devolvi o seu emblema, sem usá-lo pela última vez,
       dissolvi este dilema, apaguei qualquer chance de talvez...
Então me fui e, partindo, sequer olhei por sobre os ombros, pra não dizer adeus,
Tentei esquecer os tombos, e carregar na mala só os beijos seus,
Juntei os meus escombros e, estrada afora, indo lenta e calmamente embora,
Levei os sonhos meus...

Palavras

Ah!  Essas palavras!
São elas que deságuam, que pingam do meu rosto nas horas de maior desgosto, num rio grande de emoção!
São elas que transbordam deste meu coração, ora cansado de sofrer, ora feliz sem ter por que, dolorido, apaixonado, amargurado, colorido!
São elas que se imprimem pelas folhas, pelas linhas, formando paisagens do meu eu, fotografias tão perfeitas, e tão minhas!
Ah!  As palavras!
Vilãs cruéis, que contam a todos a verdadeira natureza do meu ser; as minhas vidas duplas, triplas, loucas; o meu teatro, em que me cabem mil papéis!
Ah!  Palavras!
Por que sempre funcionam melhor que meu espelho?
Por que nelas não consigo disfarçar o vulto velho e triste que habita o lado oculto da minha alma?
Por que com elas eu perco a calma, extravaso o grito, desato o laço, desmancho qualquer mito?
Ah!
Quisera eu escrever muito, mais e amiúde
Para que aqueles que tivessem em meu sangue sua raiz
Pudessem ler sobre tudo o que eu quis e fiz
E soubessem que fui muito feliz
Por ter amado mais que um dia, mais do que pude, mais do que devia...

Ciclo sem fim

A palavra aguarda, envolVIDA em seu casulo,
Pelo momento mais sublime desde que se fez a luz...
No parto da ideia, dá-se o seu nascimento
Que traduz ao mundo o que um coração exprime!

A palavra voa, moVIDA a forças seculares,
E cresce nos lugares mais distantes, mais estéreis...
Irrigada pela mente, evolui a cada dia
Seja prosa prosa ou poesia, nada será como antes...

A palavra grita, e é ouVIDA em toda parte
A ela une-se outra, e outras mais inda virão!
Reproduz cada instante no que você vê - ou lê -
Como obra de arte, em evolução constante...

A palavra chora, comoVIDA com o que faz
Ao escorrer da mão de quem não reconhece sua essência...
Torna-se capaz de destruir uma nação em um segundo
Na falta de consciência de um mundo que diz evoluir!

A palavra sofre, e duVIDA de seu ofício...
O vício de poder corrói o que há de mais doce e inocente!
A ambição transforma a mente em máquina de guerra,
Salta da boca, invade a terra e a destrói...

A palavra emudece, e nos conVIDA a meditar:
Qual é o seu real papel nesse planeta azul?
Unir toda a gente que vem e vai, de norte a sul, pela estrada
E que, mesmo espalhada, pode formar uma corrente pelo bem?

A palavra luta, e reVIDA com firmeza
Busca, na natureza do homem, esperança!
Desperta amor e paz naquele que a escuta
Faz a mudança de alguém para melhor...

Então, a palavra sorri.  AtreVIDA, nunca há de calar-se,
Pois o ciclo se renova e a morte não a alcança:
Ela é espelho e voz do adulto, da criança e até do mais antigo,
É o íntimo amigo, que define nossa sorte em sua VIDA...

Cale-se!

Cale
Essa pergunta maldita que veio na ponta da boca
Essa ironia afiada que corta minha vez, minha voz
E me deixa tão rouca, tão louca!
Por favor, cale-se!
Meus ouvidos já não mais suportam
A silenciosa angústia das palavras que não saem,
O barulho do ponto de interrogação que não chega,
O grito da dúvida que não se pronuncia...
Cale seu silêncio, sua dormência, sua distância...
Fale comigo, grite comigo, ouça comigo!
Deixe-me tocar os seus sons,
               sentir as suas frases,
               tatear as suas sílabas,
               beijar as suas palavras...
O cinema mudo há muito não existe
E você insiste, persiste
Em me querer bola de cristal, carta de tarô, búzio, palma de mão...
Não!!!
Só vou entender o que você falar
Só vou descobrir o que você mostrar
Só vou ouvir o que você não silenciar
E me render, só quando você quiser me amar...

Ao te ver chegar

Ao te ver chegar, me sinto viva...
Teus olhos cor de oliva brilham, são pequenos vaga-lumes
Cativam; e cultivam meus ciúmes, mesmo sendo tão serenos...

Ao te ver chegar, me sinto calma...
Teu cabelo macio se abriga na palma da minha mão
Busca conforto e atenção, sabendo que não sou só sua amiga...

Ao te ver chegar, me sinto leve...
Tua presença, quando breve, deixa gosto de quero mais
Tira minha paz, imprime em minha mente o seu rosto...

Ao te ver chegar, me sinto quente...
Tua pele clara me arrepia, me faz ardente de amor
Espalha teu calor, cria felicidade - hoje mágica tão rara!...

Sonho Perfeito

Chegou, no gosto de um sorriso
Tocou meu rosto.  Trouxe a paz...  E agora
Já não sei mais por que seu calor
Invade, docemente traz tanta saudade...
Um beijo tornou todo esse sonho real
Vejo, depois do inverno, o sol afinal!
Já não sei mais pra que arriscar um jogo feito
E se eu não ganhar?
Quero, e você me quer do nosso jeito
Assim...  Perfeito assim...

Seus olhos reluzem, faróis ao luar
Na noite que vem se deitar sobre nós dois...
Já não sei mais se quero fugir da felicidade
De estar com você por toda a eternidade...
Assim...  Pra sempre assim...