domingo, 21 de novembro de 2010

Seu olhar

Seu olhar
Portal de luz que eu atravesso, e vejo o mar...
O mar escuro, que seduz a viajante incerta,
Que afoga o meu desejo e me aperta em sua onda azul,
Devora o meu silêncio e morde a minha boca no seu beijo...

Seu olhar
Maçã com mel que eu provo, e me vicio...
Um rio fundo, que puxa a presa como um ímã,
Que me exila do meu mundo e, de manhã, me afaga o rosto,
Deixa o meu medo exposto e corta o meu cabelo em sua adaga...

Seu olhar
Veneno doce que eu bebo, e morro calma...
A alma gêmea, que comigo se parece e me odeia,
Que norteia a minha vida e me derruba em sua cama,
Dorme ao meu lado e leva a minha dor na sua ida...

Seu olhar...
Lua cheia que me assombra, e me fascina...
A alva estrela que, de tão luminosa, me agride,
Que domina o meu pavor e me carrega, à meia-noite, pelo vento,
Divide o meu momento, e espalha a minha voz no seu lençol...

Seu olhar...
Caminho longo que eu sigo, e chego ao céu...
Papel crepom, que envolve o meu prazer em um abraço,
Que esconde o meu pranto e tira o meu batom no seu sorriso,
Desfaz o meu cansaço e cala o meu canto em seu amor...

domingo, 14 de novembro de 2010

Renascer

Findou-se um ciclo... E brilha nova aurora
Que traz em si candura de criança.
Pura harmonia, luz de esperança
Brotam em paz, neste meu peito, agora...

Ficam-se os erros para trás... Passados
São os atalhos turvos do caminho.
As cicatrizes, marcas vis do espinho,
Lembram tormentos, hoje superados...

Sigo adiante. Minha fronte altiva
Embora mostre, ainda, alguma dor
Já não é mais, da mágoa, alma cativa...

Voo outra vez... E, livre do rancor,
Sinto pulsar a magia de estar viva
E deixo entrar, sem medo, um novo amor...

Cinco sentidos

A minha pele se ressente da ausência do seu toque,
Do roçar dos dedos que a provoque e atormente...
Pede pelo seu calor, para aquecê-la em noite fria
Quer a carícia que arrepia antes do ato de amor...

O meu olhar se nega a perceber outro sorriso
Que não seja o seu - tão claro e tão preciso que me cega...
Busca por sua luz para iluminar o meu semblante
Quer o instante em que o brilho dos seus olhos me seduz...

A minha boca se esquece de qualquer que seja o gosto
Que não o do seu rosto, dos seus lábios. Numa prece,
Roga por saciar a fome desesperadora que a invade
Quer que nunca seja tarde para aplacar essa sede de você, que me consome...

O meu olfato se resume a perceber seu cheiro doce
Mesmo que fosse a última vez em que sentisse seu perfume...
Indica o caminho para que eu siga seus passos
Quer seus abraços, que me envolva em seu carinho...

Os meus ouvidos se confundem com o som da sua voz:
Ora a sós, ora nós... Você enlouquece meus sentidos!
Clamo por uma palavra sua, que leve a solidão embora do meu peito
Quero o final feliz, perfeito - estar ao lado de quem amo...

sábado, 6 de novembro de 2010

Tudo

Tudo o que eu canto
É o começo e o final da história
É a esperança jogada e o pranto
É a batalha e o sabor da vitória!

Tudo o que eu falo
Eu só falo porque tenho medo
Eu só falo porque é segredo
Eu só falo porque não me calo.

Tudo o que eu digo
Tem a fé de um pobre coitado
Tem a fúria de um grande inimigo
Tem a dor de quem é mal amado...

Tudo o que eu escrevo
Vem com a força da fonte que brota
Vem com a sorte plantada no trevo
Vem com o som de uma última nota...

Tudo o que eu canto, espanto
Tudo o que eu falo, estalo
Tudo o que eu digo, ligo
Tudo o que eu escrevo, fervo...

Servidão

Miro no alvo, e a seta segue o seu destino:
Acerto o peito do menino, faço dele meu escravo.
Lavo minhas mãos no suor daquele rosto escuro
E deixo exposto o coração, prêmio que tanto cobicei...

Se a lei eu não cumpri, não é o que interessa
Mas a verdade é essa: sou dele dona e senhora!
Determino a hora em que se deita ao meu lado
E também posso mandá-lo embora, quando quero.

Assim, impero: tenho, em meus punhos, suas rédeas
Sei quando soltar, quando roçar suavemente a negra pele
Para que, cativo, sonhe. E vele, eternamente, pela dama
Que inflamou a sua chama e dominou a sua mente!

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Metaforicamente...

Visto o pelo da raposa e utilizo a clara astúcia
Para seguir suas pegadas, já quase apagadas no caminho
Piso no campo do seu peito, e não há jeito de não tê-lo
Por perto, de tocar o seu cabelo, de beijá-lo a céu aberto...

No Leme, minha nau se perde entre memórias e naufrago
Divago em pensamentos, saboreio os bons momentos e o riso
Preciso da sua pele em minhas mãos, dos meus dedos no seu rosto
Tão bonito, exposto ao meu olhar, sem graça se eu o fito...

Do Ipê, agitam-se as folhas, que balançam com a brisa
Dançam em volta de você, e o enlaçam num abraço
Enraízo-me no espaço ao redor deste rochedo, tão seguro
E sereno, percebendo, logo cedo, que você ainda é o MEU pequeno...

Sem escrever

Sem escrever
Fica a pergunta sem resposta, o adeus sem dor,
O beijo sem calor, o jogo sem aposta,
O fogo sem arder, o eu sem você...

Sem escrever
Não sei dizer o que preciso, o que é tão claro e tão conciso na palavra!
Como o olhar feliz daquele que nos é tão caro,
Como o suor que escorre daquele que lavra o nosso raro pão,
Como o calar doído daquele coração, em que reparo as batidas:
Silabando as despedidas,
Fraseando as idas,
Palavreando as vidas...

Sem escrever
O mundo perde o colorido, o barco perde o rumo,
A construção perde o seu prumo, o divertido perde a graça,
A massa perde a consistência, e desanda,
A razão não manda, e eu perco a consciência...

Sem escrever
Fico vazia feito sala de cinema, em plena segunda-feira,
Fico tristonha feito a lua, quando dela só se vê metade, já não está inteira,
Fico calada feito menina, que virou mulher na sua vez primeira...

Sem escrever
Quem sou eu?
O que é você?...