domingo, 24 de outubro de 2010

Nada (1º lugar - SMC/VR - 2001)

Nada...
É resposta automática, curta, clara, sem graça
É abrigo, é fuga, esconderijo das verdades
É disfarce, é farsa, é fundo falso de gaveta.
_Não foi nada...
E me esconde na palavra, corta a conversa
E se esconde na palavra, nega o que sente
E nos esconde na palavra, nos camufla de nós mesmos,
Para eu não saber, não descobrir, não falar
Nada.

Eu quero é o Tudo: da sua cabeça, do seu conflito
Eu quero o mito, a dor, o rancor e a tristeza
Eu quero o todo de você! Na correnteza
Dos seus pensamentos mergulhar, e me fazer
O contrário da palavra! Ser toda, exclusivamente sua,
E me embriagar no meu Tudo, que é você!

Atlântida

Escuto os sons que vêm na bruma dos meus sonhos
Ouço a espuma do mar, que canta em vários tons
Os derradeiros, os fugidios dias, o interlúdio
Entre a guerra de nervos que me agitou o espírito, e a paz que hoje se encerra.
No fundo do oceano, onde repousa a minha alma
A solidão acalma os últimos rumores do que, um dia, foi meu mundo...
Na terra, lá em cima, o profundo pesar dos meus temores
Ficou no coração dos que já foram meus e, eternamente, o serão.
Aqueles que choraram minha perda para as águas, numa noite turbulenta
Não fazem mesmo ideia do que se passa nesta lenta e antiga profundeza!
Aqui há a pureza dos pensamentos, a cantiga das correntes,
As inocentes vidas que não guardam mais rancores, dores e mágoas.
Descanso, finalmente, em berço lúgubre e sereno
E o medo que já tive, deixei-o em algum lugar do mar acima...
Posso passar a eternidade neste clima de sossego, tão tranquilo como brisa
E respirar, para sempre, o aconchego desta marítima cidade...

sábado, 16 de outubro de 2010

És professor

Se és professor?
E o que mais serias?
Se em tanta angústia é que te findam os dias
Se cultura e arte são tuas companhias
Se de alma e caneta jorram tão belas poesias...
O que serias, se não mestre, docente?
Que descortina o saber e desafia a mente
Que ao aluno ensina e lhe sugere: "Tente!"
Que crê no cidadão que há em toda gente...
Como serias outro, se não professor?
Quando das "múmias" inertes lhe incomoda o torpor
Quando da injustiça lhe brota toda a dor
Quando da desilusão ainda lhe sobra amor...
Professor, tu o és. É tua sina e sorte!
Pois lutas pela vida onde entrevê-se a morte
Pois andas na navalha de um fino corte
Pois é cais de mudança, onde a esperança aporte.

Parabéns por seres quem és, professor!

Misturas

Quanto trabalho, quanta correria, quanto cansaço!
É mínimo o tempo para o abraço, para a alegria...
Ficamos órfãos de amigos, de instantes prazerosos junto àqueles a quem queremos bem.
Precisamos aprender o milagre da multiplicação de horas
Para dividir a vida entre o coração e o suor do nosso rosto
E deixar o sentimento exposto na dificuldade da lida.
Viver é luta intensa; imensa é a vontade de jogar tudo pro alto!
Num salto, cair de pé, sair correndo pela cidade, pela estrada,
Chegar às casas irmãs na dor, na tristeza, na beleza da poesia e na fé,
Encher de amor, transbordar na fantasia, evoluir pelas manhãs...
Que tal acender a luz da convivência da alma
E, na palma da mão, levar o carinho ao amigo pelas tintas das canetas?
As cores se misturam: pretas, amarelas, brancas, marrons...
Por que não misturarmos nossos sons, nossas palavras, nossas ideias, nossas emoções mais belas?

sábado, 2 de outubro de 2010

Minutos

O relógio marca o tempo do meu amor...
Tenho alguns minutos para olhar seu rosto!
Quem dera não ter que falar nada
Só provar seu gosto, sentir na boca o seu sabor...

O relógio marca o tempo do meu amor...
Tenho poucos minutos para ouvir o seu silêncio!
Quem dera não ter que decifrar o que não diz
Só ser feliz, unir na minha a sua cor...

O relógio marca o tempo do meu amor...
Tenho raros minutos para matar minha saudade!
Quem dera não ter motivo pra ir embora
Só fazer, desta hora, a eternidade a seu dispor...

O relógio marca o tempo do meu amor...
Tenho menos que minutos para dizer o que preciso!
Quem dera não ter que suportar a sua ausência
Só viver esta demência e, sem juízo, me queimar no seu ardor...

O relógio marca o tempo do meu amor...
Já não tenho mais minutos para conquistar você!
Quem dera não ter que ouvir o seu adeus
Só adormecer nos braços seus, e me perder de vez no seu calor...