sábado, 9 de junho de 2012

Caixinha de música (a 1ª poesia)

Olha...
Repara bem nesta bailarina
Que dança, impassível,
Diante dos teus olhos.
Baila e enfeitiça.

Olha...
Repara bem neste coração
Que, de tanto admirar a bailarina,
Resolveu admitir que também dança
Quando te vê
E, impassível diante dos teus olhos,
Num louco frenesi
Baila, desesperado, assim
Enfeitiçado por ti!

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Viajar é preciso (9º lugar - Folha Dirigida/ABL - 1997)

   Cada livro é uma viagem...  E nós, os viajantes sem rumo neste mundo de palavras, entregues à sorte e às ideias dos autores, esses artistas, que nos ofertam riso e dor, luxo e miséria, amor e ódio, num país sem fronteiras...  O livro está para a cultura como o barco para o mar: deixa em cada porto um pedaço brasileiro, um tesouro que irá enriquecer o pescador...
   Viajar é um desafio!  É encontrar-se na Bahia, ser um capitão de areia e jogar capoeira no cais, ou ainda Gabriela, vistosa morena sob o olhar atento de Jorge, tão Amado!  É perder-se nos pampas, imaginar-se um certo gaúcho Rodrigo, uma Ana - casta como a Terra - na mais perfeita tradução do Sul de Veríssimo.  É embrenhar-se nas praias e matas, ainda virgens, do Brasil, vivendo as aventuras e desventuras de Peri e Iracema...  Que Tupã o abençoe, grande pajé Alencar!  É ficar de ressaca ao ver os olhos de Capitu, ser casmurro como Dom Machado de Assis...  É velar Severino e tantos outros, pranteando com Melo Neto a morte e a vida no Nordeste...
   Viajar é doce, é pura poesia...  É deixar-se levar pelos sonetos de Vinícius, jurando-lhe fidelidade e amor total antes da separação...  É banhar-se nas Espumas Flutuantes do rio Castro Alves, e comover-se, e indignar-se, e envergonhar-se do nosso passado (?) preconceituoso e intolerante.  É desvendar a tragédia humana em versos biologicamente corretos, no linguajar inconfundível de Augusto dos Anjos.
   Cada livro é uma viagem...  Quem dera conhecer a Arcádia mineira, e amar o amor simples de Dirceu!  Quem dera voltar a Itabira, e retirar a pedra do caminho de Drummond!  Quem dera passear por Passárgada, ser amigo do rei e porta-voz de Bandeira!  Quem dera adentrar o sertão e lutar ao lado do bem, nas grandes veredas de Guimarães Rosa!
   Viajar é preciso!  É preciso ler para desbravar este nosso chão, é preciso o livro para que cada irmão se reconheça no outro, em espelhos que se estendem do Oiapoque ao Chuí, página à página, palavra por palavra...  É preciso ser um turista dos livros, contemplar a diversidade, explorar as doferenças e redescobrir o Brasil!  Viajar nos livros é reconstruir a nossa própria história...

Partida (1º lugar - FERP/VR - 1996)

Meu ex-passo,
Meu pré-fácil,
Meu ante-abraço,
Meu pós-parto...
E parti, deixando uma carta de herança,
            deixando a mesa farta de esperança,
            deixando a voz do "Parta!" de lembrança...
Parti partida, e minhas pares sei que não mais vão se juntar,
Porque ficou minha metade, naquela sala,
Porque ficou minha saudade, que me cal,
Porque ficou minha felicidade, que hoje nem me fala...
Se parti na hora certa, não tenho certeza.
Mas resolvi o meu problema, de acordo com as leis,
       devolvi o seu emblema, sem usá-lo pela última vez,
       dissolvi este dilema, apaguei qualquer chance de talvez...
Então me fui e, partindo, sequer olhei por sobre os ombros, pra não dizer adeus,
Tentei esquecer os tombos, e carregar na mala só os beijos seus,
Juntei os meus escombros e, estrada afora, indo lenta e calmamente embora,
Levei os sonhos meus...

Cale-se!

Cale
Essa pergunta maldita que veio na ponta da boca
Essa ironia afiada que corta minha vez, minha voz
E me deixa tão rouca, tão louca!
Por favor, cale-se!
Meus ouvidos já não mais suportam
A silenciosa angústia das palavras que não saem,
O barulho do ponto de interrogação que não chega,
O grito da dúvida que não se pronuncia...
Cale seu silêncio, sua dormência, sua distância...
Fale comigo, grite comigo, ouça comigo!
Deixe-me tocar os seus sons,
               sentir as suas frases,
               tatear as suas sílabas,
               beijar as suas palavras...
O cinema mudo há muito não existe
E você insiste, persiste
Em me querer bola de cristal, carta de tarô, búzio, palma de mão...
Não!!!
Só vou entender o que você falar
Só vou descobrir o que você mostrar
Só vou ouvir o que você não silenciar
E me render, só quando você quiser me amar...

domingo, 14 de novembro de 2010

Cinco sentidos

A minha pele se ressente da ausência do seu toque,
Do roçar dos dedos que a provoque e atormente...
Pede pelo seu calor, para aquecê-la em noite fria
Quer a carícia que arrepia antes do ato de amor...

O meu olhar se nega a perceber outro sorriso
Que não seja o seu - tão claro e tão preciso que me cega...
Busca por sua luz para iluminar o meu semblante
Quer o instante em que o brilho dos seus olhos me seduz...

A minha boca se esquece de qualquer que seja o gosto
Que não o do seu rosto, dos seus lábios. Numa prece,
Roga por saciar a fome desesperadora que a invade
Quer que nunca seja tarde para aplacar essa sede de você, que me consome...

O meu olfato se resume a perceber seu cheiro doce
Mesmo que fosse a última vez em que sentisse seu perfume...
Indica o caminho para que eu siga seus passos
Quer seus abraços, que me envolva em seu carinho...

Os meus ouvidos se confundem com o som da sua voz:
Ora a sós, ora nós... Você enlouquece meus sentidos!
Clamo por uma palavra sua, que leve a solidão embora do meu peito
Quero o final feliz, perfeito - estar ao lado de quem amo...

sábado, 6 de novembro de 2010

Tudo

Tudo o que eu canto
É o começo e o final da história
É a esperança jogada e o pranto
É a batalha e o sabor da vitória!

Tudo o que eu falo
Eu só falo porque tenho medo
Eu só falo porque é segredo
Eu só falo porque não me calo.

Tudo o que eu digo
Tem a fé de um pobre coitado
Tem a fúria de um grande inimigo
Tem a dor de quem é mal amado...

Tudo o que eu escrevo
Vem com a força da fonte que brota
Vem com a sorte plantada no trevo
Vem com o som de uma última nota...

Tudo o que eu canto, espanto
Tudo o que eu falo, estalo
Tudo o que eu digo, ligo
Tudo o que eu escrevo, fervo...

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Sem escrever

Sem escrever
Fica a pergunta sem resposta, o adeus sem dor,
O beijo sem calor, o jogo sem aposta,
O fogo sem arder, o eu sem você...

Sem escrever
Não sei dizer o que preciso, o que é tão claro e tão conciso na palavra!
Como o olhar feliz daquele que nos é tão caro,
Como o suor que escorre daquele que lavra o nosso raro pão,
Como o calar doído daquele coração, em que reparo as batidas:
Silabando as despedidas,
Fraseando as idas,
Palavreando as vidas...

Sem escrever
O mundo perde o colorido, o barco perde o rumo,
A construção perde o seu prumo, o divertido perde a graça,
A massa perde a consistência, e desanda,
A razão não manda, e eu perco a consciência...

Sem escrever
Fico vazia feito sala de cinema, em plena segunda-feira,
Fico tristonha feito a lua, quando dela só se vê metade, já não está inteira,
Fico calada feito menina, que virou mulher na sua vez primeira...

Sem escrever
Quem sou eu?
O que é você?...