sexta-feira, 8 de junho de 2012

Cale-se!

Cale
Essa pergunta maldita que veio na ponta da boca
Essa ironia afiada que corta minha vez, minha voz
E me deixa tão rouca, tão louca!
Por favor, cale-se!
Meus ouvidos já não mais suportam
A silenciosa angústia das palavras que não saem,
O barulho do ponto de interrogação que não chega,
O grito da dúvida que não se pronuncia...
Cale seu silêncio, sua dormência, sua distância...
Fale comigo, grite comigo, ouça comigo!
Deixe-me tocar os seus sons,
               sentir as suas frases,
               tatear as suas sílabas,
               beijar as suas palavras...
O cinema mudo há muito não existe
E você insiste, persiste
Em me querer bola de cristal, carta de tarô, búzio, palma de mão...
Não!!!
Só vou entender o que você falar
Só vou descobrir o que você mostrar
Só vou ouvir o que você não silenciar
E me render, só quando você quiser me amar...

domingo, 14 de novembro de 2010

Cinco sentidos

A minha pele se ressente da ausência do seu toque,
Do roçar dos dedos que a provoque e atormente...
Pede pelo seu calor, para aquecê-la em noite fria
Quer a carícia que arrepia antes do ato de amor...

O meu olhar se nega a perceber outro sorriso
Que não seja o seu - tão claro e tão preciso que me cega...
Busca por sua luz para iluminar o meu semblante
Quer o instante em que o brilho dos seus olhos me seduz...

A minha boca se esquece de qualquer que seja o gosto
Que não o do seu rosto, dos seus lábios. Numa prece,
Roga por saciar a fome desesperadora que a invade
Quer que nunca seja tarde para aplacar essa sede de você, que me consome...

O meu olfato se resume a perceber seu cheiro doce
Mesmo que fosse a última vez em que sentisse seu perfume...
Indica o caminho para que eu siga seus passos
Quer seus abraços, que me envolva em seu carinho...

Os meus ouvidos se confundem com o som da sua voz:
Ora a sós, ora nós... Você enlouquece meus sentidos!
Clamo por uma palavra sua, que leve a solidão embora do meu peito
Quero o final feliz, perfeito - estar ao lado de quem amo...

sábado, 6 de novembro de 2010

Tudo

Tudo o que eu canto
É o começo e o final da história
É a esperança jogada e o pranto
É a batalha e o sabor da vitória!

Tudo o que eu falo
Eu só falo porque tenho medo
Eu só falo porque é segredo
Eu só falo porque não me calo.

Tudo o que eu digo
Tem a fé de um pobre coitado
Tem a fúria de um grande inimigo
Tem a dor de quem é mal amado...

Tudo o que eu escrevo
Vem com a força da fonte que brota
Vem com a sorte plantada no trevo
Vem com o som de uma última nota...

Tudo o que eu canto, espanto
Tudo o que eu falo, estalo
Tudo o que eu digo, ligo
Tudo o que eu escrevo, fervo...

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Sem escrever

Sem escrever
Fica a pergunta sem resposta, o adeus sem dor,
O beijo sem calor, o jogo sem aposta,
O fogo sem arder, o eu sem você...

Sem escrever
Não sei dizer o que preciso, o que é tão claro e tão conciso na palavra!
Como o olhar feliz daquele que nos é tão caro,
Como o suor que escorre daquele que lavra o nosso raro pão,
Como o calar doído daquele coração, em que reparo as batidas:
Silabando as despedidas,
Fraseando as idas,
Palavreando as vidas...

Sem escrever
O mundo perde o colorido, o barco perde o rumo,
A construção perde o seu prumo, o divertido perde a graça,
A massa perde a consistência, e desanda,
A razão não manda, e eu perco a consciência...

Sem escrever
Fico vazia feito sala de cinema, em plena segunda-feira,
Fico tristonha feito a lua, quando dela só se vê metade, já não está inteira,
Fico calada feito menina, que virou mulher na sua vez primeira...

Sem escrever
Quem sou eu?
O que é você?...

domingo, 24 de outubro de 2010

Nada (1º lugar - SMC/VR - 2001)

Nada...
É resposta automática, curta, clara, sem graça
É abrigo, é fuga, esconderijo das verdades
É disfarce, é farsa, é fundo falso de gaveta.
_Não foi nada...
E me esconde na palavra, corta a conversa
E se esconde na palavra, nega o que sente
E nos esconde na palavra, nos camufla de nós mesmos,
Para eu não saber, não descobrir, não falar
Nada.

Eu quero é o Tudo: da sua cabeça, do seu conflito
Eu quero o mito, a dor, o rancor e a tristeza
Eu quero o todo de você! Na correnteza
Dos seus pensamentos mergulhar, e me fazer
O contrário da palavra! Ser toda, exclusivamente sua,
E me embriagar no meu Tudo, que é você!

sábado, 16 de outubro de 2010

És professor

Se és professor?
E o que mais serias?
Se em tanta angústia é que te findam os dias
Se cultura e arte são tuas companhias
Se de alma e caneta jorram tão belas poesias...
O que serias, se não mestre, docente?
Que descortina o saber e desafia a mente
Que ao aluno ensina e lhe sugere: "Tente!"
Que crê no cidadão que há em toda gente...
Como serias outro, se não professor?
Quando das "múmias" inertes lhe incomoda o torpor
Quando da injustiça lhe brota toda a dor
Quando da desilusão ainda lhe sobra amor...
Professor, tu o és. É tua sina e sorte!
Pois lutas pela vida onde entrevê-se a morte
Pois andas na navalha de um fino corte
Pois é cais de mudança, onde a esperança aporte.

Parabéns por seres quem és, professor!

sábado, 2 de outubro de 2010

Minutos

O relógio marca o tempo do meu amor...
Tenho alguns minutos para olhar seu rosto!
Quem dera não ter que falar nada
Só provar seu gosto, sentir na boca o seu sabor...

O relógio marca o tempo do meu amor...
Tenho poucos minutos para ouvir o seu silêncio!
Quem dera não ter que decifrar o que não diz
Só ser feliz, unir na minha a sua cor...

O relógio marca o tempo do meu amor...
Tenho raros minutos para matar minha saudade!
Quem dera não ter motivo pra ir embora
Só fazer, desta hora, a eternidade a seu dispor...

O relógio marca o tempo do meu amor...
Tenho menos que minutos para dizer o que preciso!
Quem dera não ter que suportar a sua ausência
Só viver esta demência e, sem juízo, me queimar no seu ardor...

O relógio marca o tempo do meu amor...
Já não tenho mais minutos para conquistar você!
Quem dera não ter que ouvir o seu adeus
Só adormecer nos braços seus, e me perder de vez no seu calor...